sexta-feira, 7 de maio de 2010

Pássaros mágicos

Por que
me quer prisioneira
de tuas certezas
de tuas semprices
de tuas tolices?!

Quer que eu repita na sala iluminada
para tantas outras bocas ocas
as opiniões ouvidas nas esquinas?
__Sempre acorrentada em padrões!

Estou cheia de monologar!

Não, não quero ficar aqui
ouvindo a mesma música
a mesma piada
usando essa máscara moldada
desgastada.
O mesmo tédio, a mesma mágoa.
Como eles
vendo sempre da mesma forma
o mesmíssimo quadro!
Concordando concordando
Contraditoriamente concordando

Ah, esses meus cabelos sempre lambidos!
Quero eles ( não gosto de quero-os)
despenteados, embaraçados, emaranhados
E esses passos lassos sob os guarda-sóis
ou sob os guarda-chuvas
ou sob os girassóis!

Quero correr entre os trigais de de Van Gogh até cansar
Deixe que a noite escura e fria arrepie minha pele
Que eu quero, exausta, me deitar no chão e de manhã secar meu corpo ao sol

Marie de Laurencin, vista-me com seus traços:
incessante borboleta branca
de grandes olhos negros
que voando busca...

Vôo ao vértice dos versos
numa viagem voraz
devorando vozes
Voando nas asas de um pássaro!
De um sedutor pássaro de asas mágicas!

Em minhas mochilas levo meus gritos, meus grilos,
meus espantos,minhas esquisitices,
minhas possibilidades, minhas vontades,
muitas rimas,
minhas crenças,
e todas as diferenças.

Junto, meus pássaros mágicos!
Espaço indizível em meio a tantas asas imprevisíveis
incríveis infalíveis!

descartáveis
memoráveis
inseparáveis

E depois ...?!
Nunca mais a mesma!

Não pergunte nada que não tenho mais a resposta
Não sei a resposta
Não quero ter respostas pensadas
Quero-as vividas, pintadas e sentidas
como as línguas púrpuras das labaredas
como uma gota gélida escorrendo na pele

Visíveis! Como o são os girassóis do artista
Audíveis! Como o são os grilos estridentes do poeta

Agora!
Me pinte agora.
Assim!
irremediavelmente
única e múltipla
refletida nas retinas do poeta:
sem rimas
sem sina
despida
__Vestida de imortal beleza!

(Esse poema mereceu o 1º lugar no Concurso Estadual de Contos e Poesias dos Servidores Públicos do Estado do Paraná, em 2008)

Poemas

Era outra vez ,uma menina

Estranha tela aquela
de cores ora serenas, ora febris
em que centenas de fragmentos
em meio a um turbilhão de pigmentos
arriscam movimentos sutis

Num segundo
uma menina emerge
em cores antigas como o mundo
—tão novas para ela!

Nas mãos um pincel, um arco-íris na paleta
a pinceladas livres certas vivas
a menina traceja (a vida)
­—irrequieta borboleta!

Mergulha as mãos no azul do céu e escorrega-as pelas paredes
rompendo limites
­—as paredes misturam-se ao céu!

Inventa um cavalinho transparente para ondular no azul
farejar o tempo...
galopam entre nuvens de algodão, por campos e mares verdes
balançam-se nas cabeleiras de árvores verdadeiras, de braços plumosos
—o verde tinge os olhos da menina e invade seus sonhos despretensiosos!

Mais adiante
as ondas das águas tépidas
sugerem-lhe outro curso
—novas pinturas, outras técnicas!

Esboça uma forma insinuante...
uma linha sinuosa... imprecisa...
Indecisa... a moça começa um traço
traça , destraça,
cruza, transpassa ,
retraça
até que perde a graça:
—um grito , a dor!

Na torre
as sombras roubam-lhe as cores:
a mulher tenta juntar
sonho a sonho com traços fracos
nos estilhaços de um abraço
destila o aço
estrelaços de luz
—cansaço!

Tinge tudo de sépia
tons neutros ,desprovocantes, irrelevantes ,isentos de indagações
Termina e se encosta
sem rosto,braços soltos
uma gota quente escorre seguindo o curso das formas
e cai umedecendo a tinta seca
—restinho de púrpura deixada na paleta!

Súbito
refaz uma grande janela
quebrando as vidraças fazendo inundar a luz
uma luz sem pressa que a aquece e a seduz
rouba o olhar da velha-menina encoberto pelas cinzas das horas
cabelos brancos, antigos olhos verdes
—pinta-se outra vez!

Irreverente
agarra as crinas do cavalo transparente
que ondulando fareja o azul do tempo...
com um traço o enlaça
e com ele vai...
voa o mundo
voa a vida
busca tintas etéreas
para finalizar sua tela:

Eterna tela a se estampar!

(Este poema recebeu Menção Honrosa no segundo Concurso Estadual de Contos e Poesias dos Servidores Públicos do Estado do Paraná, em 2009)