Poema em branco
Há um abismo entre mim e as palavras!
Houve um tempo em que elas brotavam espontâneas
Estouravam como amoras maduras entre os dentes
Eram sopradas pelo vento
-espaço alucinado da infância!
Quando foi que as palavras revestiram-se de mistério?
Que sensações distantes
secretamente desejadas e temidas eram aquelas que me traziam?
Como mariposas procurando sua completude na luz, as palavras se chocam contra a face vítrea da ilusão
até caírem estéreis, como semente torradas...
( não percebem o que as separam do mundo)
Busco as palavras como quem busca o impalpável
Em que canto elas se escondem?
Estão nos becos soturnos
nas gargalhadas,
nos lamentos, nos tormentos, na voz agoniada
da louca na janela
do homem de fraque negro
do artista decadente
Persigo as palavras em vão
Elas fogem em bando... vão pousar
ritmadamente no livro do poeta
Quintana! Tu me disseste que um poema se espera com paciência e silenciosamente como um gato
Mas as palavras...
Escapam dentre os dedos
As palavras são grilos:
traduzem seus silêncios interiores
aos gritos flecham a noite
e se escondem de mim
-Só para me provocar!
Obstinadamente escrevo nas faces desse abismo substancial
Ainda que minhas palavras permaneçam secretas fantasias
Ainda que apenas deixe as sementes livres confundirem-se
Com o nada