sexta-feira, 7 de maio de 2010

Poemas

Era outra vez ,uma menina

Estranha tela aquela
de cores ora serenas, ora febris
em que centenas de fragmentos
em meio a um turbilhão de pigmentos
arriscam movimentos sutis

Num segundo
uma menina emerge
em cores antigas como o mundo
—tão novas para ela!

Nas mãos um pincel, um arco-íris na paleta
a pinceladas livres certas vivas
a menina traceja (a vida)
­—irrequieta borboleta!

Mergulha as mãos no azul do céu e escorrega-as pelas paredes
rompendo limites
­—as paredes misturam-se ao céu!

Inventa um cavalinho transparente para ondular no azul
farejar o tempo...
galopam entre nuvens de algodão, por campos e mares verdes
balançam-se nas cabeleiras de árvores verdadeiras, de braços plumosos
—o verde tinge os olhos da menina e invade seus sonhos despretensiosos!

Mais adiante
as ondas das águas tépidas
sugerem-lhe outro curso
—novas pinturas, outras técnicas!

Esboça uma forma insinuante...
uma linha sinuosa... imprecisa...
Indecisa... a moça começa um traço
traça , destraça,
cruza, transpassa ,
retraça
até que perde a graça:
—um grito , a dor!

Na torre
as sombras roubam-lhe as cores:
a mulher tenta juntar
sonho a sonho com traços fracos
nos estilhaços de um abraço
destila o aço
estrelaços de luz
—cansaço!

Tinge tudo de sépia
tons neutros ,desprovocantes, irrelevantes ,isentos de indagações
Termina e se encosta
sem rosto,braços soltos
uma gota quente escorre seguindo o curso das formas
e cai umedecendo a tinta seca
—restinho de púrpura deixada na paleta!

Súbito
refaz uma grande janela
quebrando as vidraças fazendo inundar a luz
uma luz sem pressa que a aquece e a seduz
rouba o olhar da velha-menina encoberto pelas cinzas das horas
cabelos brancos, antigos olhos verdes
—pinta-se outra vez!

Irreverente
agarra as crinas do cavalo transparente
que ondulando fareja o azul do tempo...
com um traço o enlaça
e com ele vai...
voa o mundo
voa a vida
busca tintas etéreas
para finalizar sua tela:

Eterna tela a se estampar!

(Este poema recebeu Menção Honrosa no segundo Concurso Estadual de Contos e Poesias dos Servidores Públicos do Estado do Paraná, em 2009)

Um comentário:

  1. Muito bonito, Nelsi, sutil, suave e enigmático. O jogo de palavras torna-o provocante e pronfundo. O simbolismo das cores torna-o vivo. Mario José

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